A IASP (Associação Internacional para o Estudo da Dor) descreve a dor como uma experiência desagradável, com dimensões sensoriais e emocionais, ligada a uma lesão real ou potencial — ou semelhante à experiência causada por ela. É uma daquelas definições que condensam tanta informação em poucas palavras que podem ser difíceis de entender, até para profissionais de saúde.
Uma das minhas tarefas principais é ajudar a traduzir isso. Entender a dor, conversar sobre dúvidas, crenças e expectativas faz parte de construir um tratamento realista, empático e alinhado com o que importa para você.
Vamos dar um passeio breve por esses conceitos e pelos princípios que norteiam o tratamento.
Dor como experiência
Cada ser humano vivencia a dor de uma forma. Ela envolve os sinais que o corpo envia, o processamento no cérebro e na medula, nossas experiências anteriores, humor, crenças e medos. O sono, as relações e as adaptações que fazemos para continuar vivendo também participam dessa experiência.
Às vezes, não há uma lesão que explique toda a dor. Em outras situações, a lesão existe, mas não é mais o único fator que a mantém. Limitar essa experiência a um defeito local que precisa de correção, ou apenas ao uso de um medicamento, pode deixar muita coisa importante de fora.
É possível sentir uma dor muito mais intensa do que os exames sugerem ou do que foi reconhecido em consultas anteriores. Sair de um atendimento se sentindo desvalorizado ou pouco escutado acrescenta sofrimento. A ausência de uma explicação completa não torna a dor menos real.
Tipos de dor: os componentes sensitivos
Três mecanismos ajudam a entender a dor. Eles podem coexistir:
- Dor nociceptiva: acontece pela ativação de sensores que alertam para ameaça ou dano nos tecidos, como numa lesão ou inflamação. É o alarme que ajuda a proteger o corpo.
- Dor neuropática: decorre de lesão ou doença do sistema nervoso responsável pela sensibilidade. Pode trazer choques, queimação, agulhadas ou formigamento. Não se limita à compressão de um nervo, e esses sintomas, isoladamente, não confirmam o mecanismo.
- Dor nociplástica: envolve alterações no processamento da dor que não são suficientemente explicadas por uma lesão nos tecidos ou no sistema de sensibilidade. É como se o alarme estivesse mal calibrado, disparando para além da sua função de proteção. Essa comparação ajuda a compreender o mecanismo, embora não explique tudo o que acontece.
Também vale conhecer dois termos: alodínia é a dor provocada por algo que normalmente não deveria doer, como um toque leve ou um abraço; hiperalgesia é uma resposta aumentada a um estímulo doloroso. Esses achados podem aparecer em diferentes condições. São pistas para a avaliação, não diagnósticos por si só.
Avaliação e tratamento
Avaliar a pessoa como um todo se tornou uma frase de efeito, meio senso comum. Mas, na dor crônica, explorar a vida para além da dor é essencial. Como é a rotina? E a ergonomia no trabalho? Quais são as dores para além da dor? O que deixou de ser feito por medo de piorar?
Entender o sofrimento mental, as expectativas, os movimentos evitados e a perda de funcionalidade permite propor um cuidado que alcance esses diferentes aspectos. A história, o exame físico e a revisão dos tratamentos anteriores ajudam a decidir o que precisa ser investigado e o que já pode começar a mudar.
A Medicina de Família e Comunidade oferece uma boa base para esse trabalho: acompanhar a pessoa ao longo do tempo, cuidar da saúde física e mental e compreender seus hábitos e contexto. Também é fundamental reconhecer quando outro profissional pode contribuir.
Fisioterapeutas têm um papel importante na reabilitação e no trabalho físico continuado. Profissionais de educação física e da psicologia podem ampliar o cuidado. Dependendo do quadro, ele pode ser compartilhado com especialistas em dor, reumatologia, ortopedia, fisiatria ou psiquiatria. Trabalhar em equipe permite somar recursos sem perder uma referência de acompanhamento.
Base do cuidado
O tratamento é construído com você. Pode envolver medicamentos, movimento, cuidados com o sono, fisioterapia e apoio psicológico, considerando o que já ajudou, os riscos e o que cabe na sua rotina. Sinceridade, empatia e transparência sustentam esse plano.
Aprender sobre dor faz parte das consultas, assim como avaliar a funcionalidade, os resultados e as dificuldades de colocar o combinado em prática. Nas consultas seguintes, o plano pode mudar: uma proposta precisa funcionar na vida, não só no papel.
Eventualmente, técnicas miofasciais, como agulhamento seco e liberação manual de pontos-gatilho, podem fazer parte do cuidado. Movimentos e cuidados manuais simples podem ser ensinados para fazer em casa, inclusive com ajuda de cuidadores. Procedimentos com agulhas ficam restritos ao atendimento profissional.
O uso medicinal da cannabis também pode ser discutido como tratamento complementar em situações selecionadas, inclusive diante de evidências limitadas. Isso exige uma justificativa clínica, transparência sobre as incertezas, avaliação de riscos e acompanhamento próximo.
Voltar a caminhar, dormir melhor ou retomar uma atividade importante pode orientar o tratamento. Reduzir a dor e recuperar qualidade de vida são objetivos que precisam conversar com seus valores. Para algumas pessoas, ficar completamente sem dor pode ser uma expectativa pouco realista. Esse assunto merece uma conversa cuidadosa, sem promessas milagrosas e sem desistir de buscar melhora.
Consulta e acompanhamento
Atendo na Corcovado Medicina de Família, no Jardim Botânico, on-line e em domicílio. Prefiro que a primeira avaliação de dor seja presencial, para poder examinar você. Algumas consultas de acompanhamento podem funcionar bem on-line. Não precisa chegar sabendo o nome do que tem: podemos começar pelo que está acontecendo.
Se a dor vier com perda de força nova, alteração no controle da urina ou das fezes, febre ou após um trauma importante, procure avaliação de urgência.